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© os desafios da abelha

"os desafios da Abelha" - todos criados por mim - não têm limite temporal, podem participar quando quiserem.

"os desafios da Abelha" - todos criados por mim - não têm limite temporal, podem participar quando quiserem.

© os desafios da abelha

15
Mar21

era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava.

Ana de Deus

o nome do blogue e a hashtag correcta é: os desafios da Abelha

Cat Soul de Laura Agusti


hoje desafio-te a escrever uma história, no máximo com 200 palavras, que comece assim: 
Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava.

NOTA: este desafio teve início a 15 de Março de 2021 e será deixado a vogar pela blogosfera
para todos os que lhe quiserem dar continuidade.

IMPORTANTE: publica o link deste post, para quem nos lê ter acesso a todos os textos.
mesmo quem não é desafiado formalmente, pode entrar no desafio.

tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu, tu e tu.

CONVITE: VAMOS HUMANIZAR OS DESAFIOS? LÊ PELO MENOS 2 TEXTOS ANTERIORES AO TEU,
NESTE DESAFIO OU NO ANTERIOR E VISITA O BLOGUE DOS AUTORES PARA DEIXARES UM COMENTÁRIO.

 

os desafios da Abelha

A GATA BII YUE

Acordou com os raios de sol. Um dos seus gatos estava enroscado a si. Ficou uns momentos a saborear e a apreciar a serenidade. Levantou-se e foi à sua rotina de dia de semana e de estar a trabalhar de casa. Lavar a cara, vestir roupa mais confortável, café, ligar o computador. Estava tao concentrada na sua to-do list que se esqueceu que tinha uma zoom call. Coloca os headset, liga a camara e quando vai para falar "miau, miau, miau". O seu gato estava no seu colo e pensou que fosse ele a miar, por isso continuou a falar até que as pessoas do outro lado da camara terminaram a conversa a pensar que ela estivesse a gozar. Ela olhar para o seu gato e ouve "já nao era sem tempo, quero mais comida!".

 

os desafios da Abelha

A GATA MISS LOLLIPOP

Mia crescera com o estigma do seu nome que odiava pois era alvo das piadas dos seus amigos que insistentemente repetiam “Mia, porque não mias”.

De dia, tentava não tropeçar nos gatos que ronronavam no seu quintal, espreguiçando-se preguiçosamente sob os raios do sol, os mesmos que à noite competiam em serenatas de miados debaixo da sua janela.

Naquele dia em que amanhava umas belas postas de pescada, foi atender a vizinha que lhe tocara à porta a pedir um raminho de salsa, e quando voltou, tinha a cozinha cheia de gatos que saltaram pela janela para lhe roubarem o peixe.

A vociferar, de vassoura na mão, iniciou uma corrida em barda atrás dos gatos ladrões.

Escorregou num ramo de salsa que deixara cair sem querer, bateu com a cabeça no chão e foi para o hospital em coma.

Quando acordou do coma só miava para espanto geral.

Chamaram a curandeira lá da terra que logo descobriu que tinha sido alvo de mau olhado da vizinha a quem dava salsa.

Depois de umas rezas, umas mezinhas e uns pós de pirlimpimpim, Mia deixou finalmente de miar, passando a divertir-se com a sua vizinha que de um momento para o outro passou a zurrar.

 

os desafios da Abelha

A GATA INÊS REIS

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava. Mas, para seu grande choque, nenhum dos médicos ao seu redor lhe ligava. Foi apenas quando se calou por uns momentos, que reparou, finalmente, nos sons que saíam das bocas dos demais pacientes. Enquanto uma senhora de idade cacarejava, de pé, numa cama articulada, uma jovem rapariga uivava ao sol do meio-dia, na janela empoleirada, e com a bata de hospital já meia rasgada. Com o coração quase a sair pela boca, cerrou os olhos e imaginou-se num asilo, a menos de três quartos do caminho para chegar a louca. Mas, felizmente, acordou do pesadelo muito antes de lá entrar e confessou – ainda que a medo – saudades da sua efémera habilidade para miar.

 

os desafios da Abelha

A GATA MARIA ARAÚJO

era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava. os médicos estavam preocupados, nunca tal lhes acontecera. tinham o dever de chamar a família, deviam prepará-la para este seu novo estado, a sociedade é ingrata, poderiam sofrer com isso.
quando os dois filhos chegaram ao hospital, um dos médicos comunicou-lhes que a mãe tinha acordado do coma, estava a recuperar muito lentamente, iria levar tempo a ser um pessoa "normal". mas com paciência e o carinho que eles lhe dariam, ela ficaria bem. mas tinha um senão para lhes contar: ela não falava, ela miava.
e foi então que os filhos responderam: " não se preocupem, doutores. contavamos que isto viesse a acontecer. é que toda a nossa vida ouvíamos o nosso pai dizer "xiu! cala-te gata rabugenta, mias, mias, mias e não dizes nada".

 

os desafios da Abelha

A GATA MISS L

Eu acredito que isto sejam uma viagem bem alucinada. Foi contado pela Avó duma Amiga minha. Sabem como se diz: Nunca desconfie dum idoso. E a Avó dela é tão fofinha, porquê desconfiar, não é mesmo?

Ela contou-nos uma versão da história de Santa Natália, uma Santa que eu adoro, só porque a Mãe dela se chama Liliana e essa Mãe casou-se duas vezes. Essa versão eu não conhecia e fiquei logo fascinada! Vou tentar relatar, direitinho:

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava. Essa mulher foi convertida a Santa por isto mesmo. A Santa Natália. Ela acordou no dia 27 de Julho, dai ser o seu dia. Ela era casada com Aurélio, mas ele era muito, mas mesmo mulherengo. Deixou-se encantar por uma Bruxa, de seu nome, Bárbara. Ela estava bastante apaixonada por Aurélio e queria que retribui-se com todo o seu amor. Mas isso não lhe chegada. Queria ser a Esposa dele. Não pensava em mais nada. Fez uma poção para a matar e entregou a Aurélio, porém, disse que serviria para fazer tudo o que ele mandasse. Aurélio só querias as terras da Família de Natália. Ele estava ansioso por colocar todas as terras em nome dele, porém, ela quando tomou, caiu redonda no chão e ele desesperou. "Aquela Bruxa envenenou a minha Mulher!", entendeu logo. Chamou o Médico da Família. Pagou-lhe para fazer de tudo para recupera-la e ainda avisou que se a querida Esposa dele morresse, o Médico seria enforcado em praça pública. O Médico fez tudo que pode e que não pode. Esteve à cabeceira dela, dia e noite. O Médico achava que ela estava morta, mas não ousava dizer tão coisa ao Marido da mesma. Inventou um novo termo: coma. Daria para se manter com vida alguns dias, antes que corpo entrasse em decomposição. Tentava pensar num plano para fugir dali com vida. Mas, uns dias depois acordou com um miado. Ele pensava que estava a sonhar, pois sabia que Aurélio detestava gatos. Pensava que era algum maladrinho que poderia estar a comer o cadáver e assustou-se. Pois bem, ela acordou do coma e só miava.

 

os desafios da Abelha

O GATO JOSÉ DA XÃ

A porta abriu-se deixando que a equipa médica entrasse. Ao fundo o Director clínico. Os súbditos de Hipócrates espalharam-se pelas cadeiras para finalmente iniciarem a reunião.

- Então que caso clínico é esse que me querem mostrar?

Um dos médicos levantou-se da cadeira:

- Caro colega temos um caso bizarro e estranho com uma doente que esteve em coma durante algum tempo e quando acordou não falava…

- Perfeitamente natural… Queria o quê… que fizesse um discurso à nação, colega?

- Pois ela não fala… mas…

- Mas o quê Doutor? Desembuche…

- Nem sei como lhe dizer… caro Director…

Do fundo da sala uma jovem médica ergueu-se da cadeira e declarou:

- A doente mia…

Um silêncio. O Director ergueu-se devagar, saiu da cadeira e começou a passar a mão pela face. Depois:

- Ele está aí! Outra vez! Como pode ser possível?

Ninguém falava. O silêncio era quase tumular. Por fim esclareceu:

- Ao invés do que pensam este não é caso único.

- Ohhhhhh – responderam em uníssono.

- Já há uns anos tivemos um caso assim.

- E tem cura? - perguntou alguém.

- Tem. Eliminem os gatos da respiração dela. Verão que deixará de miar!

 

os desafios da Abelha

A GATA GAIVOTAZUL

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava...

Chegara numa manhã em que a tranquilidade fora repentinamente sacudida. As notícias chegavam dispersas e com grande imprecisão.  Para o quem, como, porquê... ninguém parecia deter as respostas.

Os pacientes iam entrando em catadupa, uns pelos próprios pés, outros transportados em braços e macas improvisadas. O caos instalara-se e todos pareciam impotentes perante os olhares perdidos e confusos dos que ali chegavam.

Fora a última a chegar. As buscas já haviam sido canceladas pelo que encontrá-la debaixo dos escombros no último instante havia sido por si só um milagre.

Fora um pequeno gato cinzento quem dera o alarme. Miava incessantemente recusando-se a abandonar o local.

Os exames neurológicos e a tomografia nada revelavam. Tirando as escoriações e os hematomas no rosto, nada indicaria que tinha estado no local daquele trágico evento. Para todos, era como se simplesmente dormisse, tranquila e serenamente. 

Haviam-se passado meses desde que despertara. Desde então, deambulava pelos jardins do claustro do antigo mosteiro, hoje convertido em hospital, apreciando as verdes árvores em flor e acariaciando as delicadas pétalas que despontavam.

Nos primeiros dias só miava. Os exames, mais uma vez, nada revelavam. A explicação para tão insólita condição permanecia uma incógnita.  Aos poucos, remetera-se ao silêncio e desistira de tentar que a compreendessem. Mas no seu silêncio aparente, encarnava o papel de toda uma vida e cantava. Afinal, representar Grizabella, havia sido sempre o seu sonho. E "cantá-la", era tudo o que sabia fazer...

" Daylight, I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I mustn't give in"

 

os desafios da Abelha

A GATA ANA MESTRE

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava

Nada dela se esperava

Mas acordou , e ,miou

 

Estranho caso foi o dela

Uma miuda tão bela

Que deixou de falar 

 

Ainda muito atordoada 

Voltou ao mundo coitada

Mas sempre, sempre a  miar 

 

Queria chorar, mas miava

E já muito desgastada

Percebeu que sonhava 

 

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava

Percebeu que essa mulher 

Era ela mesma a sonhar 

Que dum coma acordava

E invés de falar , miava

 

os desafios da Abelha

A GATA CONCHA

Era uma vez uma mulher que quando acordou do coma, só miava.
"Minha querida, que saudades! "dizia o namorado e "miau, fssssst" como resposta, que também se assanhava.
"Meu bijuzinho mai lindo, dá um abracinho ao pai" e sorte teve o senhor, que tinham cortado as unhas à filha enquanto dormia, que lhe lançou a mão (pata?) para o esgatanhar.
"Ai a minha menina, como é que ela volta ao coro da igreja assim, a miar", lamuriava a mãe.
 
A enfermeira achou que era altura de pôr ordem nas tropas e atirou um "Tudo para a rua! São horas do almoço e hoje é peixe cozido, calha bem já que é gata."
A mulher escancarou os olhos e retorquiu "chiça penico, ó mãe tira-me daqui que eu quero batatas fritas!"
E assim acabaram os miados...

 

os desafios da Abelha

A GATA ANA DE DEUS

era uma vez uma mulher que quando acordou do coma só miava. entendia perfeitamente o que os outros humanos diziam, mas respondia em miados e estava convicta de estar a falar a mesma língua que os médicos e as enfermeiras. não tinha consciência de que só miava. experimentaram trazer-lhe uma gata e estiveram as duas a miar em amena cavaqueira. a mulher acordara com a capacidade de entender qualquer língua. ligaram ao marido para lhe dar a notícia de que a mulher tinha saído do coma e pediram-lhe para vir ao hospital o quanto antes. ele apareceu pouco tempo depois. os médicos explicaram-lhe a situação clínica da esposa e ele não disse uma palavra. correu para o quarto da sua amada. entrou no quarto e ladrou e a mulher e a gata bufaram-lhe.

 

os desafios da Abelha

para quem gosta de partilhar é só copiar o texto debaixo da imagem 
e colar num "componente" no Layout do vosso blogue ♥
no blog de Ajuda dos blogs eles explicam AQUI

 

Eu Sou Membro

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01
Fev21

o desafio de desenhar com palavras..

Ana de Deus

© Laura Agusti

 

hoje desafio-te a descrever, pintando com palavras, todo o rosto desta mulher.
no máximo com 200 palavras. 

IMPORTANTE: publica o link deste post, para quem nos lê ter acesso a todas as histórias.

este desafio teve início a 1 de Fevereiro de 2021 e será deixado a vogar
pela blogosfera para todos os que lhe quiserem dar continuidade.

ATENÇÃO: AGORA OS DESAFIOS SÃO QUINZENAIS. DIA 1 E DIA 15 DE CADA MÊS.

 

O RETRATO POR A ALICE BARCELLOS

"Sente-se aqui, minha filha". A menina sentava-se, tentando ficar quieta para o retrato, o que não era fácil quando se tem dez anos. Do outro lado, a avó, compenetrada, afiava o lápis de ponta macia que escorregava bem no papel. Depois, levantava o lápis no ar, na vertical e na horizontal, como que a medir o rosto da modelo. Ela já havia feito isso com as filhas e o filho, o marido e, agora, eram os netos os escolhidos para ficarem eternizados na precisão dos seus traços.

Alice não compreendia como a avó conseguia transpor tão perfeitamente o desenho do seu rosto para o papel. Os olhos pequenos e brilhantes, as bochechas salientes, os lábios carnudos, o cabelo desalinhado, o pequeno sinal a meio do lado esquerdo da face. Ela queria também aprender a desenhar como a avó, até chegou a fazer algumas das suas aulas de pintura. Esforçou-se, mas não progrediu, encontrou mais alento nas palavras. Afinal, com elas também é possível desenhar belos retratos e pintar quadros cheios de vida. E não há nada melhor do que as palavras para contar as memórias que nos marcam para sempre.

Saudades daquele tempo, avó.

 

O RETRATO POR A BII YUE

olhar cansado com esperança no horizonte. cabelo atado à pressa para mais um dia de trabalho. a máscara esconde um sorriso sempre presente, não importa o seu estado de espírito. sempre numa correria para os outros, mas num ritmo que para si descarrega a adrenalina.

só que os olhos não mentem, porque esses mesmo que esteja a esboçar um sorriso... com um olhar mais atento sente-se a profundidade que vai dentro daquele corpo. uma pessoa habituada a sorrir perante a sua dor. 

uma mulher resiliente, a sorrir perante as olheiras de cansaço, a olhar para o horizonte perante as pedras no caminho. a lutar por si, expressando-se nas suas expressões faciais e corporais.

 

O RETRATO POR A MISS L

O retrato. Sem pé neste lago, eu não sinto este momento, aos poucos... Agora! E tu tentas desenhar-me como me imaginas. Eu ouço a música do rádio, mas o meu corpo está a descer. Quanto os nossos Amigos tentam falar sobre isso, eu digo que foi tudo em vão. Mas o meu coração é tão pequeno na tua cabeça. E todos estes sons... São quase uivos na tua cabeça, pois tu ignoras. Tu és jovem, és idiota. Sê uma luz!

O retrato. Tu achas que deves-me tratar como uma simples flor delicada. Tu tentas desenhar os jeitos do meu cabelo. Juro que está na minha hora. Mas tu não perdes a oportudades e tentas desenhar-me mais e mais. Tenta desenhar outra coisa que te faça sentir como se estivesses a dançar. Agora, meu querido, esquece-me. Eu estou perdida dentro deste lago. A água tapa a minha cabeça. Não tentes ser algum tipo de som. Algo está a correr mal. Agora sei que isto é provavelmente tarde demais para tentares pedir desculpa pelo teu erro, mas eu só te queria ver agora. Nunca mais me trates como se eu fosse uma simples flor delicada. 

O retrato. Eu espero ficar para sempre na tua mente. Repara bem, está na hora. Eu sei que tu e todas as pessoas vão-se recordar de mim de forma tão exagerada para ser real. Tu defines o modo como desço aos poucos. Eu já estava à espera. Eu já estava à espera. Eu já estava à espera. 

O retrato. Toda a gente se perde no que está a fazer. Tu paraste de me tentares desenhar. Achas que já não vale a pena. Tu só falavas em amor, amor, amor, amor. Eu já estava cansada. Como era possível estavas tão apaixonado? Estavas fascinado, talvez. Não, não digas isso. Deixa-me ir. Deixa-me ficar apenas como estou nesse desenho. Inacabada. Agora não passo dum...

Retrato.

Retrato.

Retrato.

 

O RETRATO POR O CRISTÓVÃO NOGUEIRA

Quantas vezes me perdi nos seus olhos.
Aqueles olhos pequenos e semicerrados,
que buscam mais do que está à vista
e neles, os meus ficam encarcerados!

Seus cabelos longos e lisos.
Mesmo presos se revoltam.
Em mim se apodera a vontade de lhes acariciar.
Num instante as minhas intenções se denotam.

Nariz, queixo e boca numa impecável harmonia.
Airosa, de beleza distinta!
Seus lábios… Ah, os seus lábios vermelhos.
Mostra o poder de uma mulher nos seus trinta.

Lábios que me convidam a um beijo sem fim.
Lábios delicados cuja existência é um pecado.
Mulher cujo perfil me tira o fôlego.
Por ele estou completamente enamorado.

 

O RETRATO POR A MARIA DA VEIGA

Aqueles grandes olhos castanhos sempre fitavam o mundo num misto de esperança e nervosismo.

O nariz perfeito, os lábios carnudos e aquele sinal ao canto da boca...

O pescoço adornado com o seu pendente preferido.

Em frente ao toucador, de costas para ele, evitando o choro para não estragar aquela noite mágica.

Ela, procurando coragem para desligar os pensamentos que a atormentavam, olhou-se ao espelho. Viu tristeza nos seus próprios olhos e não gostou. Tentou sorrir, aos poucos...

Quando se juntou a ele na cama, trocaram olhares e carinhos.

Ele, assoberbado com a beleza daquela mulher enigmática.

Ela, feliz por encontrar abrigo e cura para seus tormentos naquele abraço forte.

 

O RETRATO POR A INÊS REIS

O incisivo meio torto só aparece nos dias bons; quando as gargalhadas fogem pelo nariz à socapa e lhe arregalam as ventas por uns segundos.

Mas o constrangimento rapidamente lhe leva o sorriso dos lábios e a mão à boca. A mesma mão que constantemente esconde o pelo que cresce no sinal do queixo e que só ela vê. 

As bochechas, habitualmente rosadas, pintam-se de vermelho, num padrão que faz lembrar uma aguarela a nascer numa folha de papel virgem, depois de delicadamente tocada pelas cerdas de um pincel molhado.

Os seus olhos crescem, instantes antes de encontrarem o chão, para não mais o abandonar.

E o momento esvai-se, deixando apenas uma memória ténue de um rosto perfeito nas suas imperfeições.

 

O RETRATO POR O JOSÉ DA XÃ

Tens um olhar firme, decidido, daqueles que não engana. Nem se verga!

Apanhaste o cabelo numa trança mal-alinhavada e deixaste que alguns cabelos tombassem de lado.

Posso imaginar na ausência alva um sorriso ou uma dúvida nessa face sem cor. Tivesses máscara cirúrgica…

A testa alta denuncia inteligência, as sobrancelhas tenacidade.

Falta o nariz que poderia ser aquilino ou quiçá helénico. Mas também adunco…

Nada retiraria a beleza desse olhar.

Longínquo. Penetrante. Sagaz.

Feminina!

 

o retrato por João-Afonso Machado excede
as 200 palavras, mas está AQUI para nosso puro deleite.

o João-Afonso Machado teve a cortesia de reduzir o seu texto
para 200 palavras (as duas versões são preciosas) ei-lo:

Um nariz assim, tão proporcionado!... Nunca comprido em excesso ou curtinho, amedrontado. Nele convergiam os olhares do autocarro, senhora ainda de um olhar enorme, como ovos azulados, pestanudo, sem as obsessões das damas com o tamanho das sobrancelhas.

O cabelo caía-lhe no pescoço despretensiosamente. Castanho, sem tinta. E as faces mantinham a maciez, uma pele limpa como um godo nas águas correntes. No mais…

… A sua boca era perfeita e continuava sem acessórios. Os dentes, marfim imaculado. E depois o queixo, com uma covinha carinhosa, tudo era equilíbrio até ao pescoço, bem erguido e alto….

… A sua figura negligé corresponderia à sua normal atitude perante a vida que lhe acrescentava mistério. Arrumou um resto de madeixa de cabelo em orelha linda, sem brincos, um sorriso o mais simples, como a sua vestimenta …

…A sua imagem ficou no desgosto de a ver descer do autocarro. Haveria outro dia?

Haveria outro dia para aquela boca tão singela, sensual? Para um queixo de futura mãe. Para tão saudáveis feições, no lugar da mais perfeita estátua do classicismo antigo?

Numa qualquer esplanada… os meus dedos deslizariam entre os meandros da sua face, prometendo-lhe o mundo inteiro de ser feliz.

 

O RETRATO POR A OLGA CARDOSO PINTO

Vi-o num espelho refletido, sem saber quem era. Esse rosto desconhecido, elegante, belo, no entanto, incompleto, esbatido sem deixar entrever o nariz e a boca, nem o remate do queixo. Cada vez que me mirava nesse velho espelho, eras tu que via. Admirada por tal visão quis saber quem eras. Mais ninguém te divisava, duvidei da minha sanidade. Por seres a aparição no espelho de família, esquecido no empoeirado sótão e resgatado graças ao meu constante deambular pela casa adormecida, presumi que foras alguém do meu passado. Uma avó, uma tia? Quem?
Vasculhei nas antigas caixas feitas de metal da bisavó. Inúmeras fotografias retratavam passeios, entes queridos nascidos e falecidos há muito. Paisagens coloridas a pincel. Mas a ti não te via retratada nas películas amarelecidas, no sépia que invadia a mesa e a minha mente.
Voltei aos álbuns, às fotografias espalhadas. Já tentada a desistir nesta procura que se assemelhava a loucura, levantei os olhos e sobre o aparador lá estava a fotografia desbotada de uma mulher sentada, em pose de fotógrafo de estúdio. Retoquei o teu lindo rosto, definindo-o a aguarela. Contornei o nariz fino, depois os lábios e finalmente o contorno do teu belo rosto sem nome.

 

O RETRATO POR A ANA MESTRE

O tempo

O tempo passou

Ela olha para o espelho 

E vê que tudo mudou

 

Aquele rosto

Em tempos risonho

Já não sabe sorrir

Tem um semblante tristonho

 

As rugas

Vão chegando 

Naquele rosto cansado

Talvez culpa da vida

Talvez culpa do fado

 

O RETRATO POR A IMSILVA

A imagem esfumava-se, e ele não queria esquecer, não podia, o que isso diria da sua pessoa?

Fez um esforço de memória para relembrar os olhos doces cor de amêndoa, os lábios cheios de formato perfeito, as covinhas que apareciam nas faces sempre que sorria, o nariz adunco e muito direito, mas também apareciam as lembranças das rugas dos últimos anos.

Quando os olhos perderam o brilho, mas nunca a cor, quando as faces encovaram e a pele perdeu o viço e a firmeza. Quando a doença lhe vergou os labios num sorriso tão triste que doía.

Talvez por isso tinha momentos em que não conseguia recordar o seu rosto, porque não queria recordar os últimos tempos, a transformação a que foi sujeita pela dor e pelo sofrimento.

Talvez fosse melhor assim...

 

O RETRATO POR A CONCHA

O sol ía alto, projetando nos seus olhos a sombra, mas não lhes retirando luz.
Olhos a descoberto pelo cabelo, junto num apanhado que ameaçava já desmanchar-se e invadir o rosto.
Um gesto rápido o afastaria e os olhos continuariam, vastos, dizendo o que precisava ser dito.
 
Disseram e desviaram-se, já ignorantes d'Ele, fixando um ponto no infinito, onde vagueava o pensamento d'Ela.
 
Ele continuou fixo naqueles olhos. Veio-lhe à ideia a maneira como se semicerravam quando o nariz, um pouco grande para o rosto aspirava o ar forte da maré vazia. Um nariz aquilino, de uma beleza que provocava os cânones.
 
Os olhos, evitando  agora os seus, continuariam a semicerrar-se nas gargalhadas, soltas por aquela boca não muito bonita, com um lábio inferior polposo e um superior contraditório, fino como uma linha.
 
Toda aquela mulher era um território incoerente, maravilhoso e apaixonante. Mas para Ele, era altura de rumar a outras paragens...

 

O RETRATO POR CRISTINA AVEIRO

A jovem mãe na casa dos trinta anos tinha uma fresca pele levemente morena, um forte cabelo castanho com caracóis largos indomáveis que usava penteados para trás, num enrolado na nuca, entre um nó e um carrapito. O rosto oval, de contorno doce e meigo como o sorriso que habitualmente tinha. Lábios delicados e carnudos muito desenhados, ladeados por vincos de quem ri e sorri com vontade. As bochechas levantadas de tom levemente rosado eram a base de um olhar límpido de grandes olhos esverdeados e pestanudos. As ligeiras olheiras eram parte das marcas da maternidade recente, mas não retiravam beleza ao conjunto encimado por sobrancelhas grossas, muito bem arqueadas e com o mesmo ar indomável. algo rebelde, que também tinham os cabelos. O seu pescoço elegante e bem definido completava aquela face de beleza natural, serena, cheia de vida, e ao mesmo tempo complexa e plena de distinção.

 

O RETRATO POR ANA DE DEUS

o rosto vem coberto por um véu
mas eu conheço-lhe as linhas de cor
a minha amada tem olhos sorridentes
pincelados por longas pestanas
um nariz arrebitado delineado a traço firme
os lábios carmim são um primor
apaixonei-me pela serenidade do perfil
encantei-me pela perfeição do rosto oval
o olhar profundo cativa-nos mais do que tudo
na ausência do véu será a minha mulher

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